Você está em Opinião / ESPAÇO LIVRE /
Espaço Livre
6 de outubro de 2017
OLHARES: A criança e o professor
Antônio Gabriel de Vasconcelos Costa - Interino

Atendi em meu consultório, uma professora da rede pública municipal, de uma das muitas e pequenas cidades do Vale do Aço. Logo ao entrar, chamou minha atenção a centelha-brilho de seus olhos, que há muito tempo, venho vendo esmaecer, esvaecer, quase extinguir-se nos olhares de alguns outros professores. Essa centelha me acende me instiga a curiosidade mais que isso... nutre a essência do meu mais puro acreditar no ser humano.
Ela trabalha com crianças de 5 a 9 anos. Contou as dificuldades das crianças que vem de famílias desestruturadas, famílias de traficantes, que não têm alimentação, nem educação, nem referências adequadas dentro de casa. A escola torna-se, nesses casos, o único porto seguro. É o local de alimentar, de aprender, de interagir socialmente, de receber e dar afeto. É a escola-tábua única de salvação, nesse naufrágio-caos político-econômico-ético-governamental, “de valores”, nesse pântano onde estamos, por aqui mergulhamos, há alguns anos.
Reportou todas essas questões. Dado a arduidade dessa situação, confesso que esperei em sequência um desfilar infindável de queixas. Fui surpreendido O que veio a seguir..., não foram queixas. Ao contrário. Foram enfoques mostrando a importância de utilizar cada segundo de escola dessas crianças para trabalhar sua formação holística, enquanto havia tempo de lhes incutir, de construir alguma coisa de bom. Do instante propício de trabalhar a argila que estava macia, moldável do momento da infância, comparável à terra em pleno cio, ávida, apta a receber, germinar e frutificar boas sementes lançadas pela educação de qualidade. Falou com alegria do retorno afetivo das crianças que fazia extinguir todo e qualquer cansaço.
Eu ouvia tudo, vibrando em silêncio, em estado de encantamento. Não tinha a mínima suspeição que a melhor parte da história ainda não tinha sido contada.
Existia, nessa escola, um aluno de 9 anos, Jacó, que tinha uma situação familiar muito difícil, que se alimenta só na escola, mas era muito inteligente e tinha uma alma boníssima. Jacó tinha um irmão mais velho, Esaú. Semana passada quando a professora entrava na escola, encontrou com o professor de informática que veio correndo em sua direção dizendo que precisava lhe contar uma ocorrência da sua última aula de informática envolvendo os dois irmãos. Contou que quando Jacó chegou para a última aula, Esaú correu na sua direção, tomou sua mochila, jogou-a no chão e a pisoteou violentamente, com ódio, enquanto Jacó observava. O professor estarrecido, desnorteado, desarrazoadamente pegou a mochila do irmão agressor, jogou-a no chão perto de Jacó e mandou que ele revidasse pisoteando também. Jacó olhou nos olhos do professor e falou mansamente: “professor me desculpe, não vou fazer isso porque eu não sei ser ruim com os outros”. O professor surpreendido pela atitude da criança, estupefato, sem palavras, saiu correndo da sala, em prantos, à vagar pelos corredores vazios da escola. A professora comentou então não esperar outra atitude diferente dessa, de Jacó, que tinha uma bondade intrínseca que o meio familiar inadequado não conseguira mudar até então, nem conseguiria
Que inversão de papéis O professor de informática teve inesperadamente uma aula magistral, no melhor estilo Padre Antônio Vieira: “Frei exemplo é o melhor pregador” ou “na educação um exemplo vale mais que mil palavras”.
Essa história me remete, me faz compreender melhor, personifica, materializa o que disse Soren Kierkegaard, filósofo dinamarquês do século XIX: “O homem seria metafisicamente grande se a criança fosse seu mestre”. Escrito em homenagem a todos os professores desse país, que contra todas as adversidades e dificuldades, conseguem manter acesas a fé e a chama da educação.

Antônio Gabriel de Vasconcelos Costa é médico monlevadense
LEIA TAMBÉM
 
Publicidade
Publicidade
31 3851-1791
Av. Rodrigues Alves, nº 78, República
João Monlevade/MG
NOTÍCIAS
OPINIÃO
OPINIÃO
SOCIAIS