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Papo Aberto
29 de setembro de 2017
Cassetete para político ladrão
Luiz Ernesto

Há certos assuntos que, de tão ridículos, não merecem comentários. Que dirá uma coluna. Mas, às vezes, é impossível não se posicionar, ainda mais quando se assina uma.
Temos visto, principalmente nas redes sociais, o debate sobre uma possível intervenção militar no Brasil e, pior ainda, opiniões positivas sobre o assunto. Para mim, que não sofri na pele o regime militar no pais, de 1964 a 1985, o tema não merecia sequer discussão, de tão absurdo.
E não se preocupem, não vou falar aqui de Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Betinho, de exílios frutíferos artisticamente ou do possível romantismo da ditadura (houve isso?). O que acho é que nada, absolutamente nada, associa o militarismo à solução dos nossos problemas atuais, capitaneados pelo maior de todos, que é a corrupção, escancarada e patrocinada pela classe política. Qual herói das teorias revolucionárias irá garantir que os militares iriam extirpar esse mal do nosso país, haja vista que a corrupção não nasceu em 1986, na era Sarney, pois ela já existia há muito, inclusive, por entre as fardas?
Sobre censura, essa ainda existe, mais forte do que nunca. A econômica, financeira, a das classes sociais, do poder que alimenta uma burguesia inútil e torpe, de um país que não sabe ser burguês, mas adora ser elite. Hoje, não vemos os cassetetes em abundância em praças públicas ou sabemos de salas de tortura de órgãos oficias da repressão, mas a mordaça ainda existe, e ela também abre feridas.
Enfim, o câncer de nosso país é a corrupção. E, definitivamente, não serão os militares os heróis a bani-la de nosso meio. Até porque, quem continuará dando as cartas são os mesmos corruptos e donos do poder de agora. De todos os absurdos com os quais temos convivido ultimamente, entre eles a reverência a um réu condenado por tortura no regime militar, feita por um parlamentar em plenário nacional e aplaudida por muitos, esse debate foi um dos piores.
A seguir, reforço meu texto com um pequeno trecho do relato da professora Maria Amélia Teles, ex-militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), presa em dezembro de 1972 pela ditadura militar, em São Paulo: “A primeira forma de torturar foi me arrancar a roupa... Começaram com choque elétrico no ânus, na vagina, nos seios, boca e ouvidos, dando socos na minha cara. Se esfregavam em mim, se masturbavam em cima de mim e quando sentia muita sede, eles me davam água com sal. Jogavam coca-cola no meu nariz. Mas, com certeza, a pior tortura foi ver meus filhos entrando na sala e me vendo nua e toda urinada”.
Precisamos acabar com os políticos vagabundos e ladrões. Não com as pessoas. Chega de absurdo.

Luiz Ernesto é jornalista, escritor e subeditor do A Notícia
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